A história de um jantar

073d84ed3004dbb26d11160144102cdd-754x394Ele batia os dedos na mesa em crescente nervosismo, e a cada minuto que passava sem a ver, mais começava a arrepender-se de ter lá ido. Mas queria ir, independentemente das consequências deste jantar. Já não a via há algum tempo, mais de um ano desde o final acrimonioso da parte dele, acusando-a de ter desprezado a relação.

O final da relação não significou o corte de relações. Ambos mantinham as suas ligações nas redes sociais e seguiam o que faziam, sem dizerem nada, sem comunicarem muito por semanas, meses até. Casa um seguiu a sua vida, até que na véspera, ela mandou-lhe uma mensagem a perguntar-lhe sobre como andava a sua vida.

– Anda bem, obrigada.
– Não sei nada de você há tempos, anda bem?
– Sabes como é, muito trabalho… mas compensa.
– Olha… tens com que fazer amanhã à noite?
– Em principio, não. Porquê?
– Queres ir jantar? Só nós dois, para ver como andas.
– Há alguma segunda intenção? – perguntou, desconfiado.
– Não, nada. Apenas dois velhos amigos vendo um ao outro – jurou.

Ele hesitou, mas acabou por aceitar. Vestiu-se de forma casual: camisa azul escura, casaco, jeans e ténis e foi para o lugar combinado. Ele chegou dez minutos antes da hora, um pouco para se preparar mentalmente para o seu reencontro. Não tinha expectativas, mas queria ver como ela estava.

Mas os minutos passavam e ela não aparecia. Primeiramente, ficou indiferente, mas depois começou a achar estranho ela não aparecer. Sabia que não era de virar costas a meio do caminho, mas acabou por pensar que provavelmente, ela poderia ter-se arrependido e desmarcado o jantar. E não ficaria admirado caso ela fizesse isso, porque já a tinha visto hesitar perante muitas coisas que já tinham marcado, quando namoravam.

Ele olhava para as horas: quase 20:30. Decidira que, caso não chegasse até às 21, iria pedir o jantar, bebia, pagava e saia dali como se nada tivesse passado, e seguisse a sua vida. Tinha decidido escolher uma cerveja forte, que havia na carta que o restaurante tinha fornecido, pois tinha vindo até aquele local a pé.

Por volta das 20:40, ela apareceu. Ele estava distraído com alguma coisa quando ouviu um “oi”. E quando virou a cabeça, ficou espantado com o que via. Ela conhecia-a como uma mulher mulata, de cabelo encaracolado e vestimenta não muito longe da pós adolescente que era quando namoravam: floreados, calçado raso e perfumes discretos.

Agora, era diferente: um curto, mas elegante vestido azul, lábios pintados de vermelho cereja, uma discreta maquilhagem e sapatos de salto alto. Tinha manga curta e a saia acabava um pouco antes do joelho, e ele reparava que as marcas que tinha quando a conheceu – tinha uma grande tatuagem no braço – ficavam mais elegantes com aquele traje. E ela também gostou de o ver mais elegante… e mais cheiroso.

– Tudo bem? Atrasaste-te um pouco.
– Não, não. Cheguei bem a tempo.
– Não era às oito?
– Não, era às oito e meia.
– A sério? entendi que era às oito. Cheguei às 7:50…

Ela riu-se. «Que bobinho», pensou.

Sentaram-se e combinaram o que iam comer e beber. Pouco depois, chegaram os pratos. Ele tinha pedido um prato de carne e pensava que iria comer algum “tofu” ou algo assim, pois tinha aderido ao veganismo quando namoravam, e ficou surpreendido quando pediu a mesma coisa que ele.

– Que se psssa?
– Eu… tive anemia. Fiquei um mês no hospital.
– Ah. Foi há muito tempo?
– Algum. Pediram-me para mudar um pouco. Assim, como carne por vezes.
– O peixe também é bom…
– Comi ontem. Agora é comida de gato… – riu-se.
– Tens muitos gatos?
– Uns quatro.
– Deixaste de querer salvar todos os gatos que vias à frente?
– Não. Vivo perto de uma veterinária. Ela cuida-os até serem adoptados.
– Bom para ti. Ao menos são esterilizados…
– Sim, são.

Os dois comiam e bebiam, sem tensões latentes. Mas sabia-se que não duraria para sempre.

– Que fazes agora?
– Vendo carros.

Ela riu-se.

– Dá dinheiro?
– Vendo carros de luxo.
– Para quê? Capitalistas que jogam seu dinheiro na cara?
– Se jogam, ao menos fico com ele… e tu, que fazes?
– Eu… trabalho num escritório. Secretária.
– E a volta ao mundo que querias fazer um dia, numa Kombi?
– Ainda não desisti da ideia.
– Não caminhamos para novos. Rendemo-nos ao capitalismo, ao dinheiro?
– Que pensas?
– Que queria ganhar dinheiro, mais nada.
– Sempre pensou nisso: ganhar dinheiro.
– Olha quem fala, a vegana que queria uma Louis Vuitton… eram de pele animal, lembras-te?
– Não me fale disso – respondeu.

Ele riu-se, enquanto bebia a sua cerveja, em ar quase triunfal.

– Está rico?
– Estou confortável.
– Tem alguém?
– Não. Também, não me interessa. Viajo.
– Para onde?
– Coisas com praia. Preciso disso, especialmente no inverno.
– Gostava.
– De quê, viajar?
– Era o que fazíamos, quando estávamos juntos.
– Quando estávamos juntos, viajávamos, pinavamos que nem coelhos, e discutíamos. Porque adoravas discutir as tretas do mundo e dizias que certas coisas estavam certas, quando na realidade, não era assim…
– Mas você não era o dono da razão. Quando queria, era filho da puta.

Ele calou-se, elaborando a seguir um sorriso. Era a rapariga que tinha conhecido anos antes e que a tinha arrebatado. Ambos tinham uma grande diferença de idade: catorze anos. Ele, um solteirão empedernido, ela, uma jovem universitária com vontade de mudar o mundo. Ele, branco, de cabelo negro. Ela, negra, seios não muito grandes, coxas também não muito grandes, mas tudo o que faia era natural: a andar, a falar, até a respirar. E lembrava-se que nunca deixaram de fazer amor um dia que fosse, nem no dia em que acabaram, quando ela lhe disse que se queria despedir dele dessa maneira.

– Que está pensando?
– Em nós. No que fizemos.
– Gostou, foi?
– Acho que foste juvenil. Mas tinhas coisas fantásticas, tinhas. E fizemos coisas fantásticas.
– Você é um velho. Mas eras o meu velho. Cansava-se no sexo, mas querias voltar a fazer de novo. Vontade não faltava.
– Nunca te vi de salto alto. Viraste adulta?

Ela riu-se à gargalhada. Depois disse:

– Virei. E sabe o que fiz? Fiz outra tatuagem naquele sitio onde queria que fizesse, no fundo das costas. Não é muito grande, mas fica algo para vocês verem quando me comem por trás.
– Como gostas.

Ela riu-se de novo, enquanto sorvia a cerveja, olhando nos olhos dele.

– Vá lá, estou surpreso.
– Porquê?
– Não me queres matar com os olhos. E já agora, porque me convidaste para jantar?
– Queria ver-te.
– Poderíamos ter tomado um copo. Ou vou ser eu a pagar a conta?
– Faça como quiser. Tenho dinheiro.
– Ainda bem – respondeu, aliviado.

Acabado o jantar, cada um atirou a sua parte e deram uma gorjeta ao garçom. Ambos saíram do restaurante e foram passear rua abaixo, com ele de mãos nos bolsos e ela a segurar a carteira.

– Ganho um bónus sempre que tenho sexo com o meu patrão.
– E ele é casado? – perguntou.
– É. Um pouco mais velho que você – respondeu.
– Sempre gostaste de homens velhos. Cansamo-nos mais depressa na cama, não sei porque nos gostas. Só pode ser porque queres provar algo. Nunca…
– … foi para a cama com um homem jovem? Já.
– E então?
– Uma merda. Um dia fiquei com um jovem dos seus 20 anos. Quando chegou à altura, ajoelhei-me, comecei a chupar o mau dele, e nem 30 segundos tive quando me pediu para o tirar. Acabou por jorrar tudo pelo quarto… – riu à gargalhada.

Ele limitou a abanar a cabeça.

– Vocês se esforçam. Demoram, mas se esforçam.
– E o teu patrão, vêm-se?
– Que acha?
– Sei lá, para mim enche-se de Viagra para aguentar tudo…

Nova gargalhada.

Nisto, ele chegou ao pé de um apartamento algo luxuoso, no centro da cidade, e disse a ela:

– Agora moro aqui.

Olhou para cima e disse:

– Mora em que andar?
– Segundo. Não é grande, não é pequeno, mas é acolhedor. Gosto. Está na minha decoração.
– Não se eu gostar…
– Quem disse que eu deixaria entrar?

Ela olhou para ele, com os olhos fixos, quase como se fosse uma gata. Ele, já um pouco entorpecido pela cereja, olhou para ela e perguntou a ele mesmo porque não lhe dar uma chance, desta vez?

Sem dizer nada, abriu a porta do prédio e deixou-a aberta para que ela pudesse entrar. Quando fez, ela o beijou de modo apaixonado, e ele em consequência, pegou-a ao colo, encostando-a à parede, dizendo-lhe:

– Sabes como isto acabará, não sabes?
– Sei. Que está à espera? Eu quero.

A seguir, ela sentiu a sua cara contra a parede, enquanto sentia a sua saia a ser levantada e outro corpo a ser premido contra ela. De olhos fechados, sorriu, enquanto sentia as mãos dele no seu peito e as primeiras penetrações.

A meio da noite, ele levantou-se da cama e vestiu-se, tal como tinha vestido naquela noite, exceptuando o casaco. Ao irar-se e ver o que estava na sua cama de casal, viu um vulto nu, com o lençol apenas a cobrir-lhe as pernas, e a observar a tal tatuagem que tinha feito: duas asas de anjo na traseira. Decerto achou atraente.

Queria ir embora, passear, dar uma volta para refletir. Fê-lo pé ante pé, mas assim que tinha aberto a porta para sair, iu-a, nua, numa pose quase de súplica, para que não fosse. Ele espreitou e disse:

– A casa é minha, não te preocupes. Podes ficar cá esta noite.
– Não é isso.
– Então é o quê?
– Não vá.
– Porquê?
– Voltei a lembrar de tudo.
– Mas tens alguém.
– Não importo. Você importa?

Ele sorriu, pensou longamente e fechou a porta. Pegou nela ao colo e antes de entrar no quarto, perguntou:

– Ainda gostas da maneira como te dava os bons dias?

Ela sorriu abertamente, abanando a cabeça em sinal positivo.

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Canhotices (ou como escrever como o Ayrton Senna)

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A propósito do Dia (nacional? internacional? intercontinental? universal? galático? da Via Láctea?  será que isso se comemora na galáxia de Andrómeda?) do Canhoto, conto aqui uma historieta da minha infância.

Ser-me canhoto é natural. Escrevo com a esquerda sem problemas, apesar da minha mãe me ter chateado por cerca de um ano para escrever com a direita, até desistir. Somos uma minoria – cerca de dez por cento, mais coisa, menos coisa – e tivemos de nos adaptar a um mundo de destros.

Quando era garoto, sempre me perguntavam porque era canhoto. Achava estranho, porque para mim era natural, fim de história. Então, certo dia, contaram-me de tipos famosos que eram canhotos. E descobri, no alto dos meus dez anos, que o Ayrton Senna era um deles. Então, sempre que perguntavam porque era canhoto, tinha a resposta na ponta da língua:

– Então és canhoto?
– Sim, como o Ayrton Senna. Mais alguma pergunta?

Curiosamente, troco as marcas com a direita e nunca tive problemas. Excepto quando tentava meter a quinta velocidade nos Twingos da minha mãe…

Hoje em dia, escrevemos nos computadores, a escrita manual está a virar uma arte em extinção. Logo, essa coisa de escrever com a direita/esquerda torna-se irrelevante. O que é pena.

“Small is beautiful”

Saint Exupery 30

Gosto de livros pequenos e lógicos. Muitas das vezes são aqueles que ficam mais nas nossas mentes do que os “grandões”. Entendo que se queiram com que o leitor “se perca”, mas há maior chance de que este abandone o livro a meio.

Ando agora a ler “Vôo Noturno”, de Antoine de Saint-Exupery. O autor sempre me fascinou, mas ele é muito mais que “O Principezinho”. Ele foi um aviador com olho para o horizonte, vendo para além do azul que se transforma quando o sol se põe, ou céu estrelado quando não há lua a pairar. Quem sabe da sua história, sabe que foi aviador de correio aéreo, especialmente na América do Sul, quando se desenhavam as rotas entre cidades. As noites longas e frias da Patagónia, num mês de junho ou o deserto do Sahara – foi por causa de um acidente aéreo na Líbia que escreveu “Terra dos Homens” – certamente lhe inspiraram para tudo isto.

A partir de um certo momento, deixamos de nos sentir invulneráveis. Seja ele pelo avançar da idade, seja por um evento traumático, sentimos que a meta se aproxima rapidamente. E fica-se a pensar se andamos a fazer algo de útil. Todos queremos acreditar que sim, não é? Mas como já disse antes, por aqui, as pessoas colocam tudo em causa quando não se sentem úteis. E para fazer alguma coisa, primeiro têm de estar de bem com eles mesmos. E claro, não é fácil.

Mas ser pequeno implica ser lógico. Tem de se agarrar o leitor, dar-lhe um fio condutor, não o dispersar. Quando li o “Pedro Páramo”, do Juan Rulfo, esta semana, senti mais uma dispersão pouco lógica, quase uma surrealismo latente. Depois soube que Luis Buñuel quis fazer um filme baseado no livro e de uma certa forma, entendi. Há quem alinhe nos delírios, mas não achei delirante. Pelo contrário, tem alguma lógica e contexto histórico. Mais parecia um jogo de dominó, onde pegamos os dados de forma aleatória e que ganhe o melhor.

O que é que isto pode dar para mim? Uma pequenez lógica pode ser um bom trunfo. Vindo eu do jornalismo, ser curto, claro e conciso pode ser a arma para captar leitores. Não os aborrecer, é o que digo sempre. Se as pessoas são levadas por livros enormes insípidos e que escrevem páginas após páginas como o criador de gado enche as suas vacas com hormonas para ter bifes enormes, então direi que queremos autores… “dopados”.

E da minha parte… doping, não obrigado.

Exílios

Chavito 2

Quem acompanhou as noticias deste fim de semana soube que tentaram “matar” Nicolas Maduro, o presidente da Venezuela. E coloco isso entre aspas porque ainda não entendi bem o que aconteceu por ali. Que houve um drone que explodiu, é verdade. Mas também se fala de uma explosão numa botija de gás num prédio vizinho do palanque onde o presidente discursou.

Num país onde 98 por cento dos crimes não se resolvem, eles foram velozes em apontar quem foi e quem foram os instigadores. E claro, dão nomes estratégicos. “Magnicidio” é um deles. Tanto que hoje gozei com a situação com um amigo meu, e chamávamos de “Maduricídio”…

Mas no meio disso tudo, assisti à reação dos meus amigos venezuelanos. Uma delas, bem ácida, comparou a fuga dos soldados da parada militar à cena dos animais em debandada no primeiro “Jumanji”. É capaz. Mas no final, ela e muitos outros que conheci fazem parte de uma largo contingente de pessoas que chamo de “exilados”, onde vivem no estrangeiro, espalhados pelo mundo, para não ter de morrer à fome, andar com dinheiro que não vale nada, passar horas em filas que não darão a lado algum, e pior, ver a sua vida valer tanto quando um bolivar. Nada…

Exilar significa estar longe da familia, dos amigos, do lugar onde crescente. Ter saudades desse lugar, de tempos felizes que viveste. Todos os venezuelanos que conheço e estão exilados têm saudades da sua terra, não deixam de pensar nela. Especialmente quando não são bem acolhidos nos lugares de exílio. Conheço duas pessoas assim. Uma está no México – belo lugar de exílio… – e outra estava no Vietname.

E de um certa maneira, o exílio também é uma forma de depressão, como falei ontem. Imagina viveres sozinha, a ser pai e mãe – se for mãe solteira, por exemplo – e vives no outro lado do mundo, a oito ou nove fusos horários, e não tens muita gente a poderes apoiar. E até podes ter um grande emprego e teres uma boa vida – é uma elite – mas vives num ambiente crescentemente hostil, seja porque não entendes a língua dos outros, ou porque as pessoas são hostis ou porque o ar é irrespirável, ou apenas porque tens saudades de casa. Vindo eu de um povo habituado à emigração, como o português, nada que essa gente passa me é estranho. Ainda por cima, quando sou filho de emigrantes.  Centenas de milhares de portugueses, especialmente os vindos da ilha da Madeira, emigraram para lá, quando aquilo era próspero, e acolhia todos o que procuravam por uma vida melhor. Agora, alguns milhares pegaram no passaporte português e regressaram, esperando que a sua estadia seja temporária.

Mas conheço pessoas que se exilaram há dez e mais anos, e já desesperam. Se as pessoas não tiverem esperança de dias melhores, acabam por se deprimir. Os eventos de sábado deram, por momentos, a esperança de que as coisas poderão mudar. Se calhar, até mudarão. Mas quando será? E quando for… chegarão a tempo daqueles que afundaram no desespero, longe de casa, da familia, de tudo?

Estou solidário com eles. O meu país viveu numa ditadura por meio século, mas um dia livramo-nos dele. Os venezuelanos deveriam olhar para nós como exemplo. Algum dia isso irá acontecer. Só que deveria ser “para ontem”, como dizemos no jornalismo.

Aos meus amigos e amigas que estão longe, a chorar pela vossa nação, adoraria abraçar-vos e dizer que tudo irá correr bem. De uma certa forma, também sofro por vocês. E merecem voltar: o exílio é uma bosta.

Ilusões

Placeholder ImageNestes últimos tempos, tenho encontrado com muitas pessoas que têm uma coisa em comum: a depressão. É a doença dos tempos modernos, sejamos honestos. Pessoas que perdem a vontade de viver, de ter iniciativa, de ver que tudo o que fazem não tem qualquer consequência, ou então a sensação de que tudo o que fazem ser uma inutilidade.

A depressão é algo do qual tenho convivido. Não eu, mas sim familiares. Tenho o caso do meu irmão, que teve de meter baixa algumas vezes nos últimos anos porque apanhou maus patrões. Agora está um pouco melhor porque livrou-se deles, mudou de emprego, mas mesmo assim não é preciso muito para que a depressão se instale. O isolamento é um deles. Estar longe de amigos para desabafar, por exemplo, é um bom motivo para a depressão. Estar longe de familiares, ou não ter familiares que te compreendam é outro motivo. Estares num trabalho onde dás tudo e depois seres despedido “sem dar cavaco”, onde viras um pária, descartado como se fosses um lenço usado, também abala a convição da pessoa.

Depois, claro, faz mossa. O extremo é o suícidio, mas pelo meio, quando as pessoas ficam em casa, fechadas nos seus quartos, quando a tua mente se conforma com a tua vida, vendo os minutos a passar, com os olhos no teto, pensando em sabe-se lá o quê, com dores de alma… doi muito. Conheci uma pessoa por estes dias que me disse que o seu filho mais velho desapareceu de cena por oito meses, sem dar noticias. Trabalhava no estrangeiro, mas perdera o emprego. Saiu da casa onde morava e desapareceu de cena, fazendo temer o pior. Ao fim desse tempo, voltou, contou o que se tinha passado e tinha arranjado uma nova ocupação.

Não há um padrão para a depressão. Não há uma cura para “curar tudo”, cada caso é um caso. Dos que conheço, quase todos tiveram um final feliz, demorando o tempo que demorou, mas o que mostra é que as alegrias nas redes sociais são, muitas vezes, uma ilusão. Observamos máscaras de felicidade que escondem vazios por dentro, e muitas das vezes, acreditamos nessas ilusões. E é por isso que muitas das vezes, quando ouvimos a noticia do suicidio de alguém, muitas das vezes ouvimos a seguinte frase: “Mas ela andava tão bem…”. Tretas. Acreditamos com muita facilidade nas ilusões. Pior: sentimos inveja das vidas dos outros, acreditando que estão no melhor dos mundos, vivendo a melhor das vidas. Por dentro, vivem pior que nós. E não damos cavaco a isso.

Vou voltar a este assunto nos próximos dias, sobre outra coisa que também está relacionada com a depressão.

Extremos

SagresO verão é a altura ideal para estar a apreciar o tempo do que ficar em casa e aproveitar o ar condicionado – que também é bom, diga-se de passagem – mas este ano, estamos em extremos. Primeiro, aturamos frio, vento e chuva. E agora, vive o primeiro dia de uma onda de calor que poderá durar cinco dias, pelo menos.

Ainda não fazemos do tempo no nosso planeta o equivalente ao que fazemos do ar condicionado dentro de nossas casas, para tornar o clima mais agradável. Descontrolamo-nos ao longo de dois séculos, para chegarmos ao extremo de estarmos a respirar um ar onde, neste momento, a concentração de dióxido de carbono é superior a 400 partes por milhão. Se calhar demorará mais dois séculos para resolver o problema…

O problema destes climas extremos será, num lugar como o nosso, as secas e os incêndios florestais. No ano passado, esse clima extremo foi responsável por catástrofes como os de Pedrógão Grande ou do Pinhal de Leiria, coisas que assisti de perto. E não foi bonito de se ver. E é esse o meu temor este ano, apesar do inverno e da primavera chuvosa que tivemos. E de boa parte da floresta ter pegado fogo nos anos anteriores.

E depois há outra coisa, que a vaga de calor de há 15 anos nos lembrou: os idosos que não aguentam mais os episódios de calor extremo. Em França, nesse verão, morreram quase 3500 só em Paris. E foi nessa altura que nos lembramos que hidratar é importante, por exemplo, e que aguentar o calor é para os fortes, não para os fracos. E este ano, apesar dos avisos, muitos idosos poderão não aguentar este calor.

E também se fala que podem ser batidos recordes. Voltando a 2003… foi em Amareleja que se atingiu a tempoeratura de 44,7 graus, mais coisa, menos coisa, e fala-se que poderão chegar aos 47 graus. Até se fala em 50ºC, mas parece que isso poderá ser um exagero. Mas nunca fiando, claro…

O que sei é que hoje, são 40ºC na minha cidade. Veremos como será nos próximos dias e como isto acabará.

Mas o verão foi cancelado?

SagresQuem anda por aqui onde moro nesta quarta-feira há de reparar que o céu está carregado de nuvens, com ameaça de chuva. E julho esta a chegar ao fim, ou seja, já passou o primeiro terço do verão. E as praias das minhas bandas não estão a abarrotar.

A piada que se circula por estas bandas foi que, depois dos incêndios do ano passado, o governo teve a melhor ideia de todas de prevenção dos fogos florestais: cancelar o verão. Espero que não tenha sido isso, mas este ano tem sido raros os dias onde os céus azuis eram omnipresentes e o calor a norma. Devo ter contado alguns dias assim, e a maioria foram dias de nuvens no céu e temperaturas amenas, na casa dos 25, 28 graus. Mesmo as noites, poucas tem sido quentes.

É um claro contraste com o ano passado. Aliás, um claro contraste com este inverno. É que até janeiro, apesar das baixas temperaturas, tinha chovido pouco, e os agricultores temiam um verão ainda mais seco. As barragens estavam vazias, e não era um fenómeno nacional. Era ibérico. Havia barragens em Espanha onde estavam a dez por cento da sua capacidade, e viam-se pontes e casas submergidas quando estas foram construídas, há 40, 50, 60 ou mais anos.

Contudo, no final deste inverno, as coisas inverteram-se: choveu copiosamente em mês e meio, invertendo a situação. As barragens passarem a ter volumes de 70 e 80 por cento. Mas não parou de chover na primavera, e passou-se de seca para um saturamento das terras à volta, e os consequentes prejuízos na agricultura, especialmente quando acontecem os “flash floods”, chuvas em que numa hora chove o equivalente a um mês, estragando tudo à sua volta, com caudais monstruosos.

Mas isto é aqui. Noutros lados da Europa, as coisas são diferentes. Há seca na Suécia – a pior em 230 anos – e ontem, nos arredores de Atenas, a Grécia teve o seu momento “Pedrogão Grande”, com mais mortos do que nos aconteceu no ano passado. E com cenários demasiado familiares para o nosso gosto. E a solidariedade europeia a funcionar.

Vamos a ver como será o inverno que aí vêm, se será muito molhado ou seco. Isto tem ciclos, e este é um molhado, que poderá durar um ou dois anos. Ou se calhar mais. Mas independentemente disso, vivemos um tempo de alterações climáticas. Algo do qual nenhuma estação chuvosa nos vai apagar.